Crescendo como Saumensch

Resenha | No coração do mar

quarta-feira, abril 27, 2016 Julia Pinheiro 3 Comments


No coração do Mar é por Charlotte Rogan e publicado no Brasil pela Intrínseca em 2013. Com 234 páginas amareladas o livro é dividido em cinco partes, sendo as quatro primeiras dividas não em capítulos, mas em dias. 


A história é narrada por Grace, recém casada com um homem de dinheiro que retorna aos Estados Unidos em um navio bem chique quando ele afunda. Obrigada a se separar de seu marido para conseguir uma vaga em um bote e sobreviver Grace embarca em um grande pesadelo em auto-mar.

Confinada em um bote lotado ela se vê rodeada de estranhos, cada um com seus medos, manias, perdas e personalidades, e esta última é que vai determinar a salvação ou a desgraça dos passageiros. O tempo no barco divide os náufragos em dois, cada qual apoiando um líder diferente. Enquanto uma parte decide apoiar o marinheiro John Hardie, um homem duro, cheio de segredos e com iniciativas muito drástica, a outra metade decide apoiar a forte e protetora Ursula Grant. Com a tensão forte recaindo sobre o marco Grace sabe que decidir quem apoiar é o que vai determinar se ela sairá viva ou não disso tudo.


O livro começa e a gente sabe que Grace está sendo julgada - pelo o quê não sabemos a princípio - e que poucas pessoas do barco sobreviveram. A história do naufrago tem início quando é sugerido que ela escreva sobre os dias no barco para ajudar no julgamento, e por isso é muito mistério envolvido, porque já sabemos o final, mas não temos ideia do que levou à isso. 

Durante o livro o confinamento afeta as pessoas de maneira diferentes, e em meio a narrações de mais puta agonia relatando a fome, o frio o calor, a observação dos que estão ao redor se torna não só necessário para a sobrevivência do corpo, mas também para a mente. 


A loucura paira acima dos náufragos e com Grace não é diferente, mas em meio a paranoias, teorias de conspiração e surtos psicóticos surgem revelações e reflexões profundas sobre a vida, o comportamento humano, nossos instintos mais antigos e as nossas relações em sociedade.

É um livro genial. Tem suspense e tem uma dose tão forte de agonia que em muitos momentos achava que estava lendo uma história , de tão vivo e desesperador que os fatos eram descritos, coisas simples que faziam tudo parecer mais real, como a cor do mar, o gosto constante de sal, o peso do silêncio e da esperança.


 Devorei o livro e quando acabei fiquei um bom tempo refletindo sobre quem realmente somos? Porque ser uma pessoa no mínimo decente em uma sociedade no mínimo decente é relativamente fácil, agora quanto conseguimos manter o controle sobre instintos primitivos em situações críticas? Somos como somos ou só descobrimos nossa real natureza em situações extremas?

Apesar de eu achar um livro muito bem escrito acredito que tenha deixado muitos descontentes pela falta de descrição das pessoas, de suas vidas fora do barco e outras coisas porque o foco mesmo do livro é toda a situação psicológica, então se você gosta de delírios com tons existencialistas, indico esse livro pra você, ta bem?


Trechos Favoritos:

"Minha experiência diz que podemos imaginar cinco razões para que um fato ocorra, e a verdade será sempre a sexta."

"Seria possível que ilusão e sorte fossem o máximo que se poderia esperar?"

"Mas o senhor não teria vontade de viver se não fosse por ela?  Não quer viver por si mesmo?"

"Eu também tinha fome de certezas."

"...batalhando para prolongar sua vida por mais um ou dois inúteis minutos, não porque isso a salvará, mas porque lutar contra a morte é parte do nosso instinto como animais."


"[...] Talvez fosse impossível uma pessoa ao mesmo tempo estar viva e ser inocente."

"Não acredito que o único modo de alguém demonstrar coragem seja enfrentando o mundo sozinho."

"É óbvio que há coisas que desejo esquecer, mas às vezes me pergunto se é prudente lutar contra essas lembranças, deixando que me modifiquem."

"Não foi o oceano que se mostrou cruel, foram as pessoas."


Já leram alguma história de náufragos? Fiquei muito interessada por esse tipo de enredo.

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3 comentários

  1. Nunca tinha ouvido falar sobre esse livro! Adoro quando o autor descreve sensações tão bem que consegue nos fazer senti-las, queria ter esse talento, haha. Parece uma história bem diferente do comum, curti. E adorei as conchinhas nas fotos :3

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    1. Esse livro acho que é bem desconhecido mesmo ~infelizemente~ e eu na verdade só comprei confundindo com um outro livro que tinha visto em inglês e como a capa era parecida achei q era o mesmo porque a tradução deu certinho ~In the heart of the sea~ hsdbadhs Mas tava muito barato ( 4 reais! ) então fiquei feliz mesmo assim <3

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  2. Eu só tinha uma chance de ver o filme. Em suma, "In the heart of the sea" é um espetáculo visual muito interessante que recebe cenas específicas com força suficiente. Além disso, o filme também adiciona duas reflexões interessantes: em primeiro lugar, com Melville como eixo sobre o ato de escrever, sobre o medo de nossa própria incapacidade ea luta interna entre revelando e inventar, entre a transmissão da verdade e da captura da essência; ea segunda, sobre os interesses comerciais eternas e a tirania do dinheiro.

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